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01/06/10
Samuel Seibel
Mundo das Letras

O livreiro Samuel Seibel é uma prova de que fazer o que se gosta é meio caminho andado para ser bem-sucedido como empreendedor. Em sete anos, ele transformou a Livraria da Vila numa rede com cinco unidades na capital paulista. E o que é melhor, em referência para os leitores mais exigentes. Suas lojas têm dois diferenciais importantes para quem gosta de livrarias: vendedores-leitores, sempre à disposição para compartilhar histórias e ideias, e um espaço que convida a mergulhar no mundo dos livros, da música e do cinema. Desde o início, a proposta de Seibel era transformar seu negócio num ponto de encontro, num polo cultural importante da cidade.

Até mesmo porque ele sempre viveu esse mundo. Os livros o acompanham desde a infância vivida no final da década de 1950 e início dos anos 1960, no Bom Retiro. Na época, o bairro era um reduto de imigrantes judeus – como seu pai, Bernard Seibel, polonês que chegou ao Brasil em 1925, com apenas 14 anos de idade. “Frequentávamos a escola Sholem Aleichem, nome de um conhecido escritor judeu, e, mesmo sendo tão pequenos, os livros já faziam parte de nossas vidas. Acho que essa foi uma das principais marcas que herdei de meu pai: éramos o que hoje se classificaria como classe C e a leitura era um hábito absolutamente normal de nossa família.”

Formado em Jornalismo pela Cásper Líbero, Seibel lembra que desde os 16 anos já tinha certeza de que não queria seguir as carreiras mais comuns da época: Engenharia, Medicina e Direito. “Optei pelo Jornalismo porque achei que poderia contribuir mais para um mundo melhor. Desisti, dez anos depois, quando percebi que a minha contribuição era quase nula e quando recebi convite de meu irmão para desenvolver um trabalho na empresa da família, em 1982”, conta o livreiro. A empresa é a Leo Madeiras, fundada em 1943 e adquirida pelo pai de Seibel em 1961. Seibel acabou ficando 20 anos no negócio, atuando nas áreas comercial, marketing e compras. “Aprendi muito e me diverti também”, resume.

A decisão de ser livreiro foi tomada, segundo o próprio Seibel, de forma absolutamente inesperada e intempestiva. Não havia um antigo sonho de abrir uma livraria. Assim que a ideia lhe passou pela cabeça começou a ser colocada em prática. Tudo começou num passeio com a esposa ao Rio de Janeiro. Ao entrar numa livraria e café recém-inaugurada em Ipanema, teve a certeza de que seu destino dali para frente era ser livreiro. Comentou com a esposa que era isso que queria fazer da vida. “Foi algo muito forte. No fundo, juntei as minhas duas outras experiências de vida, como jornalista e mais voltado ao mundo intelectual e como empresário”, afirma Seibel.

O destino parece ter se encarregado de tudo. A Livraria da Vila, localizada na Vila Madalena, em São Paulo, e frequentada por Seibel, estava à venda. “Eu pretendia começar do zero, mas creio que estava no lugar certo, na hora certa.” Sem medo da concorrência das grandes redes, o jornalista fechou negócio de compra no final de 2002 e, em janeiro de 2003, já estava à frente da Livraria da Vila. Logo começou a “dar a sua cara” para o negócio, oferecendo o que hoje se chama de “experiência de loja”, algo fundamental para concorrer com a venda de livros, CDs e DVDs pela internet. Para Seibel, ir a uma livraria física hoje é muito mais do que entrar num local, ver um produto e adquiri-lo. É um ponto de encontro que desperta a vontade de comprar cultura.

Samuel Seibel tinha 48 anos quando decidiu ser livreiro e teve apoio de toda a família. Ele conta que os filhos vibraram com a decisão. Tanto que, hoje, os dois trabalham na empresa. Flávio tem 28 anos, é formado em cinema e está na Livraria da Vila desde o início. Rafael, com 26, fez publicidade e trabalha com o pai há quatro anos. “São ótimos profissionais. Para mim é um prazer e motivo de orgulho vê-los no dia a dia da empresa”, diz Seibel. Com os filhos, ele também edita a revista Vila Cultural, lançada há seis anos pela livraria e consolidada como um importante veículo de comunicação da empresa. “Não é nada fácil produzir conteúdo com qualidade a cada 30 dias. Acho que de alguma forma existe sim uma retomada da minha época de jornalista.”

A expansão da Livraria da Vila começou em 2005 com a abertura da segunda loja, no Bairro Itaim Bibi. E depois não parou mais, sempre focando sua atuação em áreas nobres. Em 2007 Seibel inaugurou a unidade da Alameda Lorena, no Jardim Paulista, e no ano seguinte, a loja do Shopping Cidade Jardim. Neste mês de maio, o empresário abre a quinta loja da rede, em Moema. No local funcionava desde 2006 a Livraria Sobrado, adquirida no início de 2010 por Seibel. Segundo o empresário, o plano da empresa é continuar crescendo, de forma bem cautelosa, aproveitando oportunidades. Abrir lojas fora da cidade de São Paulo também faz parte da estratégia de expansão da Livraria da Vila.

Leitor ávido, Seibel considera seu gosto literário bastante eclético. “Leio clássicos russos com o mesmo prazer que um romance policial ou mesmo Harry Potter. Já lia Anne Rice muito antes dessa moda de vampiro. Os três últimos livros que li – e adorei – são do Edney Silvestre (jornalista da Globo), do italiano Paolo Giordano (o livro é forte, não é para quem quer um romance leve de fim de semana) e A saga do marrano, que tenho a impressão que está esgotado”, recomenda o livreiro. Um autor que sempre recomenda é Sandor Marai, húngaro que escreveu As brasas, Divórcio em Buda e De verdade, entre outros. “Fantástico”, define Seibel.

Ele confessa que livros de negócios não estão na sua mesa de cabeceira. Mas os lê, embora com menos frequência que os demais. Para administrar a Livraria da Vila, conta com a experiência de 20 anos na Leo Madeiras e com bons profissionais a seu lado. Como empresário, se autodefine da seguinte maneira: “Uma mistura de ousado e realizador com boas doses de sonhador e idealista”. Características de bons empreendedores.

“Meu pai, Bernard Seibel, quando morou em Ilhéus e depois em Salvador, foi amigo de Jorge Amado. Pude comprovar isso numa viagem a Paris, há muitos anos, quando encontrei Jorge e Zélia numa festa. Inspirei fundo e fui me apresentar a eles como filho de Bernard Seibel. Não só lembraram, como lembraram também de minha mãe, a quem chamaram carinhosamente de Rosinha. Fiquei muito emocionado.”

Contato:

Livraria da Vila: (11) 3814-5811



Fonte: Cléia Schmitz
 
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