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20/04/10
José Alberto Aranha
Estação da inovação

 

A imagem do empreendedor que faz tudo sozinho e age como um super-herói para resolver os problemas pode parecer recorrente, mas nem sempre condiz com a realidade. Para José Alberto Aranha, engenheiro que trabalha há 40 anos com tecnologia e inovação e coordena a Rede de Incubadoras do Rio de Janeiro (Reinc), os empreendedores de sucesso não inovam sozinhos. A invenção dos produtos e serviços pode até ser um processo de criação individual, mas a inovação, que é quando o produto e o serviço chegam à sociedade, é um mecanismo coletivo que depende de um ambiente criativo e do trabalho em equipe.

O pesquisador estudou por sete anos a gestão de pessoas e observou que para criar esse clima de inovação nas empresas e incentivar o trabalho em grupo é necessário aplicar um novo modelo de gestão do negócio. Ele propõe o uso do Sistema de Estrutura Relacional (SER), um modelo dinâmico que, segundo Aranha, motiva mais os funcionários do que o modelo tradicional. Já que, ao invés de ter líderes fixos, tem lideranças escolhidas de acordo com as necessidades de trabalho, o que faz com que o empreendimento funcione como um grande sistema de coordenações de projetos em que grupos são criados e desfeitos à medida que os serviços são realizados.

As pesquisas e análises feitas por Aranha sobre empreendedorismo e inovação fazem parte do livro Interfaces – A chave para compreender as pessoas e suas relações em um ambiente de inovação, lançado em 2009. Na obra, o autor fala ainda da experiência na diretoria da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), do trabalho como membro do conselho consultivo da Endeavor Brasil e como responsável pelo Instituto Gênesis da PUC-Rio.

Quais foram os motivos que levaram o senhor a escrever o livro Interfaces – A chave para compreender as pessoas e suas relações em um ambiente de inovação?
José Alberto Aranha –
Toda a minha vida foi sempre baseada na relação entre ciência, tecnologia e inovação. O livro é um resumo de toda esta experiência. Levei sete anos para escrevê-lo porque eu queria sentir bem a mudança dessa era chamada industrial para a era do conhecimento e perceber o modelo de gestão da vida profissional dentro desse sistema. Estou muito satisfeito com o livro porque ele começou a ser lido pelas pessoas de recursos humanos e eu considero que essa é a classe fundamental para mudanças organizacionais dentro das empresas.

Quais mudanças o senhor percebeu durante esse período que foram motivadas pela nova era do conhecimento?
José Alberto Aranha –
Acredito que existem duas grandes variáveis. Uma delas é a relação do homem com o trabalho. Depois dos anos 2000 a geração Y, que é formada por pessoas que nasceram entre 1978 e 1990, começou a entrar no mercado e isso mudou drasticamente a relação do homem com o trabalho. O homem não trabalha mais por trabalhar, ele quer também bem-estar. Nessa era do conhecimento é preciso criar ambientes de inovação que deem conta de atender às constantes mudanças desse sistema. As pessoas precisam pensar em como planejar e fazer gestão da vida profissional e ao mesmo tempo ter prazer no que estão fazendo.

O que é preciso para ser um empreendedor de sucesso nessa nova era?
José Alberto Aranha –
O livro fala muito da necessidade do jovem de empreender com inovação, isso quer dizer realizar algo novo. Todo mundo fala do empreendedor como se fosse um super-homem ou uma supermulher, mas na realidade eu não acredito nisso – acredito que o sucesso está associado a um conjunto empreendedor. O grupo é que promove a mudança. Isso está relacionado com a questão do sonho coletivo. Acredito que hoje, para poder inovar, é fundamental pensar em como garantir um ambiente de confiança entre os membros do grupo e, dessa forma, a relação acaba sendo um ponto fundamental. Só produzo em grupo se na realidade eu conseguir conviver e interagir com o outro.

Já é possível perceber no Brasil essa preocupação em criar esses ambientes propícios para a inovação em grupo?
José Alberto Aranha –
O Brasil começou a investir em ciência a partir da formação de doutores, depois veio a fase de vivenciar a tecnologia e de discutir a questão de patentes e de propriedade intelectual. São processos que se caracterizam por um trabalho individual. Mas não adianta eu fazer um protótipo e colocar numa gaveta; é necessário que aquilo se transforme em um bem ou em um serviço e que as pessoas o utilizem. Isso que é inovação. Não faço sozinho, eu dependo de pessoas para produzir e para consumir. Dependo na verdade de uma relação social. Acho que o Brasil está começando a vivenciar isso, a gente está sentindo que precisa inovar, mas para chegar a essa etapa precisamos passar pela fase das patentes, tecnologias, para depois dar um salto efetivo e inovar realmente. Precisamos estar mais próximos do consumidor.

O senhor cita no livro que são necessários cerca de oito anos de estudo em uma determinada atividade para criar soluções inovadoras. O que esses anos de estudo podem significar?
José Alberto Aranha –
É o que a gente costuma chamar de experiência necessária em uma determinada área para poder realmente aproveitar uma oportunidade. Para avaliar se é um bom negócio, é preciso conhecer o segmento que se quer investir. Uma dica é apostar em algo que a pessoa goste porque isso pode dar a ela a chance de ir vivenciando o setor antes de abrir o negócio. Quanto mais se conhece uma área, mais chance a pessoa tem de reconhecer as oportunidades e de encontrar novas formas de resolver certos problemas. Agora eu acredito que, para saber como inovar, é preciso de muito estudo.

O senhor fala da necessidade de ler muito e de observar para empreender. Em que medida essas ações podem influenciar nos negócios?
José Alberto Aranha –
Acredito que a gente tem perdido este contato com a observação, porque o ser humano observava muito mais quando ele tinha mais contato com a natureza. Noto que o homem está se afastando um pouco disso e está se afastando dos outros também. Para se ter uma ideia, o jovem norte-americano gasta praticamente 11 horas por dia ouvindo música, vendo televisão e na internet. Eu me pergunto: será que ele está procurando alguma coisa nova nessas atividades? Acho que falta essa interação dele com os outros e com a natureza. Já que ele está 11 horas ligado nesses aparelhos, é preciso encontrar formas para que ele veja de uma maneira diferente esses hábitos e pense em soluções para os problemas que ele está se deparando. Para fazer isso, é preciso que ele observe. Olhe o mundo para poder encontrar soluções.

No livro o senhor cita o Sistema de Estrutura Relacional (SER) na gestão dos negócios. Como ele funciona e como pode ser aplicado?
José Alberto Aranha
– O sistema está relacionado a um novo modelo de gestão horizontalizada em que o poder passa a ser muito mais negocial, dinâmico e orgânico. Isso significa não ter mais lideranças fixas e estáveis, elas vão acontecendo conforme a ocorrência dos eventos. De acordo com as necessidades da empresa, uma pessoa pode assumir a liderança, o que faz com que o empreendimento funcione como um grande sistema de coordenações de projetos e, dessa forma, assume a posição de liderança aquele que tem mais aptidão e competência. Esse sistema é todo relacional. Com isso, são formados grupos de trabalho para resolver determinados problemas, e à medida que eles são resolvidos, são desfeitos para que se montem outros grupos. Esse é um formato de gestão mais inteligente do que aquele sistema hierárquico.

O senhor fala da importância de criar ambientes de inovação em que os funcionários trabalhem em grupos e construam pontes ao invés de muros entre eles. Como isso é possível?
José Alberto Aranha –
Nós estamos vivendo em um mundo em que somos levados a ser cada vez mais egoístas. Quanto mais nos isolamos, mais difícil é viver em grupo. Porque eu tenho que perceber o outro, interagir com ele, me comunicar e negociar o tempo inteiro. O todo passa a ser mais importante do que a parte. Isso é muito complicado. Acho que esse é o grande desafio. No livro eu falo de solidariedade, desprendimento, atitudes que já existem nos seres humanos, mas que nós deixamos para trás para lutar e viver nesse mundo mais agressivo. Mas creio que esse modelo precisa mudar.

Hoje o senhor trabalha diretamente na formação de jovens empreendedores no Instituto Gênesis da PUC do Rio de Janeiro. Como se dá esse trabalho?
José Alberto Aranha –
O instituto faz parte de um grande projeto nacional da Anprotec que busca disseminar o empreendedorismo no universo acadêmico. Já há mais de 300 projetos funcionando no Brasil como este. No caso do Instituto Gênesis, buscamos estimular o desenvolvimento de empreendimentos que podem ser empresas, ONGs ou qualquer sistema organizacional. A ideia é estimular a criação de pequenas empresas porque elas têm papel fundamental na geração de emprego e renda para toda a sociedade. Hoje nós supervisionamos 130 empreendimentos; além disso, trabalhamos para sensibilizar professores e alunos para o empreendedorismo e oferecemos disciplinas sobre o tema. Hoje um aluno da PUC de qualquer área pode cursar disciplinas de empreendedorismo. Assim ele tem a formação básica do curso que escolheu e um diferencial que é o empreendedorismo. Esse é um processo longo que vai desde a sensibilização para o empreendedorismo até o apoio à empresa, quando ela sai da incubadora.

O Instituto Gênesis é destaque no Brasil pela criação de um fundo semente em parceria com o fundo de investimentos Personale. Como esse fundo funciona?
José Alberto Aranha –
Ele surgiu de uma convicção de que as incubadoras que na realidade são as “mães” das empresas de alta tecnologia deveriam participar mais do acompanhamento e resultado das empresas que se tornam as “estrelas” do capital de risco. Nas incubadoras acontece isso: elas têm grande dificuldade financeira, criam filhos que muitas vezes ficam milionários e continuam passando dificuldades para criar novos filhos. Desta forma foi feita uma parceria entre o instituto e o fundo Personale. Estamos trabalhando juntos, cada um com sua razão social, mas com objetivos e participação final dos resultados. Acho que este fundo que está se constituindo “venture one” será uma quebra de paradigma no setor.

O senhor tem percebido maior interesse dos universitários em empreender?
José Alberto Aranha –
Acredito que sim. Primeiro porque a mídia tem dado ênfase a essa forma de agir e ela tem um papel fundamental na sensibilização dessa juventude. Além disso, houve um melhor preparo das instituições de ensino brasileiras para dar apoio a esses jovens que querem ser empreendedores. A própria postura do jovem que também tem necessidade de sentir prazer no que faz estimula o empreendedorismo.

Contato:

José Alberto Aranha - aranha@puc-rio.br



Fonte: Beatrice Gonçalves
 
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