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ENTREVISTA
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03/05/10
Moacyr Portinho de Abreu Gomes
Fim da passividade

 

Chegou o momento da área de tecnologia da informação influenciar os negócios, sob pena de perder de vez um espaço pró-ativo no mundo corporativo. Quem afirma é o consultor Moacyr Portinho de Abreu Gomes, diretor para a América Latina do Gartner Tech­nology Business Research, líder mundial em pesquisa e aconselhamento sobre tecnologia. Para o executivo, os CIOs (gerentes de tecnologia) devem começar a se questionar, por exemplo, sobre o que podem fazer para ajudar a aumentar a receita e diminuir as despesas da companhia onde trabalham. “É nisso que o presidente da empresa pensa todos os dias e é preciso falar a mesma língua do cliente interno. Por isso, saia da sua área e meta o nariz no negócio da empresa”, recomendou Gomes em uma palestra realizada para uma plateia de profissionais e empreendedores de TI, em Florianópolis.

Para que isso aconteça, o executivo propõe uma mudança de atitude dos CIOs com relação ao próprio trabalho. “Temos que aprender a nos vender. A gente bota ovo e não cacareja”, afirma Gomes. Para ele, a questão é cultural. Em geral, profissionais de TI não sabem fazer mar­keting simplesmente porque não aprenderam isso na universidade, e quando demonstram aptidão natural acabam sendo transferidos para o setor de vendas. O consultor cita estudos do Gartner que mostram que a maioria das inovações em TI se concentra na área de pós-venda dos negócios. Poucas tecnologias têm impacto direto nos processos que antecedem as vendas, o que na visão de Gomes é uma prova de que a TI tem deixado a desejar quando o assunto é geração de receita para a empresa.

A seguir, Moacyr Gomes fala sobre o novo perfil que o mercado está exigindo do profissional de TI. O consultor faz também algumas recomendações para que a área de tecnologia passe a ser vista efetivamente como uma prioridade para os presidentes de empresa. Você verá que atitude de empreendedor é a chave para abrir essa porta.

Por que este é o momento da TI influenciar os negócios?
Moacyr Gomes –
Hoje, dificilmente conseguimos imaginar um processo de negócio em que não exista a presença de tecnologia. Por isso, as equipes de TI têm que começar a entender mais dos negócios da empresa onde estão inseridas. Só assim estarão preparadas para ajudar a diretoria a encontrar as respostas para suas perguntas. Num futuro próximo, as corporações não vão mais admitir uma área que não esteja associada aos objetivos principais do presidente da companhia. Essa postura pró-ativa deixa de ser um requisito para se tornar uma obrigação, na medida em que os negócios estão responsabilizando a TI pela melhoria dos processos. Não é fácil, mas o CIO tem que meter o nariz no negócio da empresa.

Esse cenário pede um novo perfil de profissional de TI?
Moacyr Gomes –
Sim, e o Gartner classifica o perfil do novo profissional de TI como um versatilista. Quem é essa pessoa? Como o próprio nome diz, é alguém que está apto a se intrometer em outras áreas da empresa sem perder a visão técnica de um profissional de tecnologia. Para isso, a nosso ver ele deve ter três características básicas: atitude, para conhecer o negócio da sua empresa; faro, para enxergar oportunidades dentro desse negócio; e perfil de marketeiro, alguém que sabe vender seu trabalho. Em geral, os profissionais de TI têm uma dificuldade muito grande em apresentar e vender as coisas boas que fazem para a empresa. Num relatório anual de TI, por exemplo, você só vai encontrar bites e bytes em vez de uma linguagem acessível, capaz de mostrar como a área é capaz de gerar soluções de negócios. Temos que aprender a adequar a linguagem de acordo com o público que está adquirindo a informação. Se vamos mostrar um relatório de TI ao Conselho de Administração, por exemplo, temos que dizer quais são os objetivos estratégicos que a área atendeu – as metas financeiras que ajudou a alcançar, os riscos que ajudou a mitigar e os volumes de venda que ajudou a atingir. É claro que uma incursão de marketing agressivo só pode ser feita se a área de TI estiver funcionando muito bem. Afinal, não posso fazer marketing se o meu sistema vive fora do ar. Minha ação será destruída em segundos.

A TI já é vista pelas empresas em geral como algo estratégico?
Moacyr Gomes –
Temos evoluído muito. Acredito que grande parte das empresas já entendeu a importância estratégica da tecnologia da informação. Tanto que se você fizer essa mesma pergunta para os presidentes das grandes empresas, a resposta será sim na maioria dos casos. Mas se você perguntar de outra forma, questionando quais são as áreas que ele considera mais estratégicas em sua organização, muitos não vão citar TI. Embora eles entendam a importância de TI para seus negócios, a área ainda não está na circulação sanguínea desses dirigentes. Por isso, temos que participar mais dos negócios. Só assim a TI estará na ponta da língua dos diretores da empresa quando forem questionados sobre as áreas estratégicas da empresa.

Essa é uma atitude importante até mesmo para evitar cortes de custos em TI?
Moacyr Gomes –
Nós sempre falamos que cortar custos não é estratégico, aumentar mercados é estratégico. É isso que TI precisa fazer, ajudar a empresa a vender mais e reduzir custos operacionais, mas não de TI. Um bom exercício é imaginar que a partir de amanhã sua área terá orçamento zero e só lhe resta defender seus projetos e a necessidade de investimentos para reverter a situação. Se você conseguir defendê-los à luz da retenção de clientes, do crescimento dos negócios, da transformação da empresa, conseguirá provar que eles têm sentido de negócio. Quem não conseguir fazer isso, ou não está elaborando seus argumentos de maneira adequada ou seus projetos realmente não são tão necessários.

Como a TI tem ajudado as empresas a alcançarem suas metas?
Moacyr Gomes –
O Gartner divide os volumes de investimento da TI em três áreas: rodar o negócio, crescer o negócio e transformar o negócio. Temos pesquisas que mostram que entre 65% e 70% das despesas de TI estão voltadas para rodar o negócio, ou seja, manter sua operação em funcionamento. Cerca de 20% são aplicados em ações que fazem a empresa crescer e, na melhor das hipóteses, 10% em transformação do negócio. Isso quer dizer que quase todo o investimento é feito para manter o que já existe. Independente do segmento da empresa, é um pouco de contrassenso porque se você está querendo ganhar mais mercado, não pode continuar fazendo a mesma coisa. Se uma empresa precisa se tornar mais competitiva, ela tem que mudar seus processos. O que eu quero dizer é que se a TI se aproximar do negócio vai encontrar caminhos para ajudar e, obviamente, passará a investir mais em ações que trazem crescimento e transformação para a empresa.

O que as empresas mais esperam da TI hoje?
Moacyr Gomes –
Elas buscam processos extremamente alinhados com o seu negócio, mas que ao mesmo tempo possam ser mudados rapidamente de forma a atender novas demandas. Por isso, ninguém mais quer processos complexos que duram anos para serem desenvolvidos e exigem verdadeiras revoluções cada vez que precisam ser modificados. A necessidade atual é de processos desacoplados e flexíveis. Mas não é fácil mudar essas questões. As empresas não se sentem seguras, por exemplo, quando você diz para elas que passará a usar um sistema que roda na internet. Estamos muito acostumados a ter controle sobre tudo. Até então, fazíamos tudo em primeira pessoa – eu controlarei! Mas com tendências irreversíveis como a virtualização e o cloud computing, o mundo está mudando para uma terceira pessoa e o que nós temos que fazer é uma gestão da nuvem. Não temos mais o controle de tudo, mas temos que usar isso em nosso benefício.

E qual é o preço a ser pago por quem não mudar?
Moacyr Gomes –
A transformação de TI é clara: para que os resultados obtidos pelos negócios sejam uma consequência de ações da área de tecnologia é preciso que a TI se posicione ativamente dentro do negócio. Se ela não fizer isso, aos poucos será deixada de lado dentro da organização, muito provavelmente num lugar onde não gostaria de estar.

Nesse caso, perde a TI e perde toda a empresa?
Moacyr Gomes –
Perde a TI, mas a empresa perde por pouco período de tempo porque ela acaba descobrindo outra solução. E quando ela somar as despesas verá que a solução encontrada tem um valor muito maior do que esperava gastar. Resultado: vai achar um jeito de sobreviver e pressionar a TI para que gaste menos e possa aplicar mais recursos nas áreas que trazem melhores resultados. Enfim, se a TI não se redesenhar, alguém vai tomar essa atitude por ela. E isso não é bom.

Contato:

Moacyr Gomes: www.gartner.com
moacyr.gomes@gartner.com



Fonte: Cléia Schmitz
 
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