05/07/10 - Geral
Empresas nacionais perdem mercado para a pirataria
Enquanto multinacionais têm a imagem prejudicada pelas falsificações, pequenas e médias empresas nacionais perdem mercado
O crime do século 21. É assim que o coordenador do Grupo de Trabalho Antipirataria da Associação Brasileira de Software, Antônio Eduardo Mendes da Silva, define a problemática em torno da falsificação de produtos. Hoje não existe nenhum setor que não sofra a ação de piratas – de softwares a remédios, passando por peças de avião. Quem perde com isso? “Diferente do que muitas pessoas pensam, não são apenas donos de grandes multinacionais como Microsoft e Nike. Pequenas empresas nacionais chegam a ter seus negócios comprometidos por conta da pirataria”, garante Mendes da Silva.
A Intelecta Tecnologia, desenvolvedora do software Empresário, cansou de flagrar cópias piratas de seu produto sendo vendidas a menos de R$ 10 na Rua Santa Ifigênia, em São Paulo. O preço do original é R$ 700. O diretor comercial da empresa, Carlos Eduardo Mariano, estima que a proporção de venda é de 50 ilegais para cada original. “O prejuízo é imensurável. Além da perda financeira, sofremos muito com o dano à imagem do nosso produto. A versão pirateada é de péssima qualidade e desatualizada em mais de sete anos”, afirma o executivo. A empresa, com sede em São Paulo, tem 35 funcionários e vende, em média, 250 cópias do Empresário por mês.
Para ajudar a combater a pirataria, a Intelecta criou um departamento de registro na empresa. Uma equipe faz o levantamento das ativações e das ligações recebidas diariamente pelo Serviço de Atendimento ao Cliente. Empresas suspeitas de uso de cópias ilegais são investigadas e, se confirmada a ilegalidade, convidadas a comprar um software original. Os atendentes da Intelecta destacam os benefícios de ter o sistema legal como, por exemplo, a oportunidade de fazer atualizações de segurança. “Também vamos lançar o Empresário Free, versão gratuita que tem o objetivo de desestimular a aquisição de cópias piratas por parte das micro e pequenas empresas”, conta Mariano.
O 7º Estudo Anual Global de Pirataria de Software, divulgado em maio pela Business Software Alliance (BSA), mostra que os esforços antipirataria no Brasil não têm sido em vão. Nos últimos quatro anos o índice de uso de software ilegal caiu 8%. A taxa – 56% – é a menor entre os países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) e a segunda menor na América Latina, atrás da Colômbia, com 55% (veja box). No entanto, ainda é 13% acima do índice mundial (43%), apesar desta diferença ter caído dois pontos em 2009. Enquanto no mundo o uso de software ilegal aumentou 2% no ano passado, no Brasil tivemos uma redução de 2%.
Cerco na web
De acordo com a Abes, em 2009 foram apreendidos 1,128 milhão de CDs piratas em 662 operações no Brasil. Como o comércio ilegal tem migrado fortemente para a internet, a associação tem procurado cercar a web por todos os lados. Em 2009 foram retirados do ar mais de 313 sites destinados à venda de produtos ilegais, além de 19,3 mil anúncios em sites de leilão, um resultado 26% superior se comparado a 2008. A pirataria corporativa também foi alvo de ações de repressão. Foram iniciadas 160 ações contra empresas que estavam utilizando softwares falsos e se negaram a legalizar a situação. As multas chegam a três vezes o valor da licença.
A meta dessas ações é chegar ao veredicto de que o crime não compensa. Para Mendes da Silva, o argumento de que o preço alto dos originais estimula a compra de produtos falsificados não convence. Ele alega que, se esta fosse a questão, as pessoas não deixariam de comprar um isqueiro original de R$ 3 por um pirata de R$ 1,50, que tem durabilidade bem menor e ainda pode causar acidentes graves. Segundo o executivo da Abes, o problema ainda é muito cultural. Por isso, a associação começa a investir na conscientização de jovens universitários. “Eles são potenciais compradores de produtos piratas. Queremos fazê-los refletir sobre o impacto que isso traz para geração de seu futuro emprego.”
Impacto profundo
Consultor do Grupo de Proteção à Marca (BPG), o advogado Newton Vieira Júnior afirma que os impactos da pirataria vão muito além do que se imagina. Segundo ele, ao comprar um produto falsificado de uma grande marca, o consumidor prejudica muito mais a indústria nacional que vende produtos com a mesma faixa de preço do pirata. A lógica é a seguinte: o público-alvo de uma grife de luxo como Louis Vuitton, por exemplo, não deixa de comprar o original. Quem perde são os outros concorrentes. “É claro que a marca também é vítima, mas a nossa preocupação é muito mais com a sua desvalorização do que com a perda direta de mercado”, explica Newton.
Para o empresário Marco Aurélio Kirsch, a pirataria é uma ameaça ao empreendedorismo ético. “Não é novidade para ninguém que a construção de uma marca demanda investimentos altos em marketing e inovação. O que a pirataria faz é sabotar esse investimento”, afirma Kirsch, diretor institucional da Associação Comercial e Industrial de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha, polo calçadista do Rio Grande do Sul. No início deste ano a entidade lançou, em parceria com o Ministério Público gaúcho e outros órgãos, um manual de orientações para o combate à pirataria, voltado para prefeituras. “A publicação traz informações sobre legislação porque um dos maiores problemas é o desconhecimento”, diz Kirsch.
Seguindo essa lógica, a entidade também apoia o programa Escola Legal, desenvolvido pelo Instituto de Combate à Fraude e Defesa da Concorrência (Icde). Por meio de ações em escolas, o projeto busca mostrar a consequência do consumo de produtos piratas dentro do próprio universo do aluno. O objetivo é que as crianças percebam, por exemplo, que a pirataria pode estar tirando o emprego de alguém da própria família. Cerca de 100 estabelecimentos de ensino de Porto Alegre e do Vale do Sinos já participaram do programa. Para Kirsch, os consumidores precisam parar de ter a ilusão de que grandes marcas nasceram grandes. “Bill Gates um dia também foi um pequeno empreendedor. E o tamanho do negócio pouco importa. Precisamos ter um conceito ético do consumir.”
Contato:
Abes: (11) 5044-7900
BPG: (11) 5908-7750
Intelecta Tecnologia: (11) 5088-2100
ACI Novo Hamburgo: (51) 2108-2108
Fonte: Cléia Schmitz